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Um apelo à coerência

Antes de tudo peço licença para conceder a mim mesmo uma prerrogativa: do que vou mencionar a seguir abstenho-me, no momento, de qualquer juízo de valor. Não estou de modo algum atribuindo santidade ou mundanidade a qualquer elemento ou situação. O que não significa, é claro, que não possam ser aferidos dessa forma, apenas que não vou fazê-lo nesta postagem. O objetivo é tão somente bradar em favor de um todo lógico.

René Descartes observou com sarcasmo que o bom senso é a coisa mais bem distribuída do universo, afinal, ninguém alega precisar de mais do que já possui.

Por isso mesmo todo apelo ao bom senso ou à coerência é sempre apropriado, ainda mais ante a tantas subjetividades que nos escapam como o ar por entre os dedos.

Lamento profundamente que os fundamentos da Lógica, aquela matéria que fazia parte essencial da formação educacional e intelectual daquelas grandes pessoas do passado inexista em nossos currículos escolares. Pensar logicamente ajuda muito a agir coerentemente (sei que em certo sentido lógica e coerência podem ser sinônimos, mas refiro-me àquela Lógica mais abrangente, mais profunda, filosófica, científica, que merece ser alimentada e tratada com carinho). Ou seja, não basta ser bem intencionado, é preciso estar bem direcionado também.

A coerência não é virtude natural, não é parte constitutiva do ser humano, aliás, Kierkegaard afirma com todas as letras que “é loucura pensar que a fé e o bom senso nos podem nascer tão naturalmente como os dentes, a barba e o resto. Não, onde quer que os homens cheguem fatalmente, e aconteça-lhes o que lhes acontecer, uma só coisa escapa à fatalidade: a fé e o bom senso”.

Temos então razões suficientes para estarmos atentos às coisas que afirmamos frequentemente com tanta galhardia.

Existe coerência em chamar de pecado uma visita ao cinema e sentar-se refesteladamente no sofá de casa para assistir ao filme Tropa de Elite (provavelmente pirateado)?

Recriminar aqueles que investem tempo e dinheiro em congressos, conferências, retiros e seminários se alinha de forma coerente com gastar tempo e dinheiro com praias, hotéis e pousadas?

E quanto a condenar o uso da internet, especialmente redes sociais, e gastar aquele tempo em frequentes e demorados passeios no shopping center?

Há coerência em considerar um ultraje absurdo escutar música mundana como, por exemplo, a do U2 ou Bob Dylan, mas não ver mal algum em acompanhar os episódios do CSI (Las Vegas, New York, Miami e sei lá quantos mais)?

Podemos atribuir, ainda, o adjetivo coerente a quem condena teatro, pintura, escultura, museus e quaisquer outras formas de arte e cultura e não perde nem uma exibição do CQC?

Encontrei a mim mesmo enquadrado em algumas incoerências enquanto meditava e escrevia. Seria possível pensar em toneladas de outras situações donde pululam incoerências, mas, pelo que se propõe em postagens para blogs, já está bom.

Fica a reflexão. Que retumbe o apelo e germine a coerência, pelo amor de Deus.

Posted in Reflexão.


Como pregar para não converter a ninguém

Deixe que seu motivo predominante seja assegurar sua própria popularidade.
Preocupe-se mais em agradar do que converter aos seus ouvintes.
Procure assegurar sua reputação como sendo um pregador famoso e diferente dos outros (para que todos o idolatrem e não prestem atenção na mensagem).
Fale com um estilo florido, enfeitado e inteiramente fora do alcance da compreensão da maioria das pessoas.
Seja superficial nas suas considerações para que seus sermões não contenham verdades suficientes para converter alguém.
Deixe a impressão de que se Deus é tão bom com todos, não enviará ninguém para o inferno.
Pregue sobre o amor de Deus, mas não fale nada a respeito da santidade do seu amor.
Evite dar ênfase na doutrina da completa depravação moral do homem para não vir a ofender o moralista.

extraído de http://www.monergismo.com/livros2/spurgeon/artigos/frases.htm

Posted in Reflexão.


Quando Jesus chorou

A Bíblia Sagrada no diz acerca de duas ocasiões em que Jesus Cristo chorou:

 Estava, porém, enfermo um certo Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de sua irmã Marta. E Jesus, ouvindo isto, disse: Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela. Ouvindo, pois, que estava enfermo, ficou ainda dois dias no lugar onde estava.  Depois disto, disse aos seus discípulos: Vamos outra vez para a Judéia. Assim falou; e depois disse-lhes: Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo do sono.  Disseram, pois, os seus discípulos: Senhor, se dorme, estará salvo. Mas Jesus dizia isto da sua morte; eles, porém, cuidavam que falava do repouso do sono. Então Jesus disse-lhes claramente: Lázaro está morto; e folgo, por amor de vós, de que eu lá não estivesse, para que acrediteis; mas vamos ter com ele…

Disse, pois, Marta a Jesus: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.

Disse-lhe Jesus: Teu irmão há de ressuscitar

Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.  E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?

Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo. Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?

E disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: Senhor, vem, e vê.

Jesus chorou.

Tiraram, pois, a pedra de onde o defunto jazia. E Jesus, levantando os olhos para cima, disse: Pai, graças te dou, por me haveres ouvido.Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste.E, tendo dito isto, clamou com grande voz: Lázaro, sai para fora. E o defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço. Disse-lhes Jesus: Desligai-o, e deixai-o ir”. (João 11: 1, 4, 6,7, 11-15, 21, 23, 25-27, 34-35, 40-44)

 

O outro momento:

“E [Jesus], quando ia chegando, vendo a cidade, chorou sobre ela, Dizendo: Ah! se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! Mas agora isto está encoberto aos teus olhos.

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta; porque eu vos digo que desde agora me não vereis mais, até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor”. (Lucas 19: 41-42 e Mateus 23: 37-39)

Jesus Cristo chorou ante o corpo morto de Lázaro, e ante a cidade de Jerusalém.

A morte física de um e a morte espiritual da outra.

Jesus bem sabia o que havia de fazer quando foi a Betânia. Ele havia dito aos discípulos que Deus havia de ser glorificado. Porque choraria Jesus então? Certamente não por estar diante de um amigo que morreu, posto que Ele estava ali justamente para ressuscitá-lo. Jesus chorou ante a miséria a que o homem havia jogado a si próprio pela desobediência e pecado. Jesus chorou pois o homem não havia sido criado para ter que passar pela morte, miséria, desespero e sofrimento. Mas, disse Deus, que se o homem escolhesse seguir a si mesmo, a seu orgulho, negando-se a viver por, para e com Deus,  certamente morreria. Deus nunca quis que o homem viesse a viver as misérias das doenças, dores e morte, não! Nunca foi o propósito de Deus. Mas foi escolha do homem. Por isso Jesus chorou naquele momento, POR AMOR.

E depois, diante de Jerusalém, cidade na qual Ele sabia havia de ser traído e crucificado, Ele chorou outra vez. Não chorou por aquilo que Lhe havia de acontecer, pois voluntariamente Se ofereceu  para morrer em nosso lugar. Não chorou porque Seu corpo seria apresentado à morte, uma vez que a morte jamais poderia contê-Lo – …e ao terceiro dia, ressuscitou! Chorou sim pelos homens que iriam rejeitá-Lo, e que por isso, diferente de Lázaro, não “sairão para fora”.

Jerusalém, por sua vez, representou todo homem e mulher que negou, que nega e que negará a Jesus Cristo como Filho de Deus, e Único Caminho para a salvação da alma. Ele chorou como um pai que chora vendo um filho sendo consumido pelo vício e repelindo qualquer ajuda. Pela segunda vez Jesus chorou, POR AMOR.

Jesus chorou ante Lázaro, pois não foi para provar dores, misérias e morte que o homem foi criado por Deus. Jesus chorou ante Jerusalém, pois muitos o rejeitaram e continuam rejeitando, mesmo tendo Ele escolhido morrer terrível morte de cruz para salvação dos seres humanos. Enfim, chorou por que sempre nos amou, com o amor imerecido, que escapa à nossa parca compreensão.

 E agora, se alguém lhe perguntar quando Deus chorou você poderá responder: Quando muito nos amou.

Posted in Maná.


O pecado dos filhos, o castigo dos pais

Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos, pelos pais; cada qual morrerá pelo seu pecado.- Dt 24,16

A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a maldade do pai, nem o pai levará a maldade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele. – Ez 18,20

Há bastante clareza no Texto Sagrado quanto à imputação dos pecados – bem como da justiça.

A equidade e a perfeição do julgamento divino estão limpidamente estabelecidas nas promessas, e na história do relacionamento de Deus com seu povo.

Quando o livro do Êxodo fala que Deus “visitará a iniquidade dos pais até a terceira e quarta geração” (34,7) está a nos ensinar que o Senhor inspeciona, verifica, toma conta daquilo que pode se tornar um hábito mau transmitido de uma geração a outra. Muito longe de afirmar que existe algum tipo de castigo perpetuado, um carma, ou maldição hereditária.

Consequências? Bem, aí trataríamos de outro assunto, ao qual este texto não se propõe esmiuçar.

Falamos de pecados, aqueles específicos, de responsabilidade pessoal e particular. Aqueles acerca dos quais o pecador, o agente do ato pecaminoso, precisa se arrepender e confessar para ser limpo e sarado. Falamos de pecados como os de Esaú e Rúben, que lhes tiraram primogenitura e primazia, ou como os de Ananias e Safira, que lhes tiraram a vida. Pecados acerca dos quais o julgamento divino empreende justiça divina.

A equidade e justiça de Deus foram impressas no caráter do homem, carregamos nessa imago Dei um senso de ética tal que em qualquer sistema de governo minimamente humano, quem precisa pagar pelo crime cometido é o criminoso.

Veríamos pessoas berrando alucinadamente nos meios de comunicação se em algum momento o ente estatal brasileiro pretendesse punir o filho do pai traficante, ou punir o pai de um filho homicida simplesmente por serem prole daquele ou progenitor deste.

De que se queixa o homem, queixe-se cada um de seus próprios pecados” (Lm 3,39). Assim é, e assim deveria ser.

Entretanto, tenho acompanhado ou ouvido relatos de pais sendo punidos além das conseqüências naturais dos pecados de seus filhos, causadoras, certamente, de terríveis sofrimentos íntimos e/ou públicos.

São homens que no curso de seu serviço prestado a Deus, por intermédio do serviço prestado à Sua Igreja, depararam-se com situações envolvendo seus filhos em vícios, rebeldia, incredulidade, adultério, agiotagem, grilagem e mesmo outros crimes mais graves.

Tais homens acabam afastados de seus préstimos, escorraçados como se escorraçavam os leprosos antigamente, explicita e prontamente ou implicitamente, com solapamentos ideológicos, e quiçá rinhas pessoais, que pode até levá-los à conclusão de que merecem mesmo a punição, afinal foram incapazes de converter seus filhos, ou de pelo menos manter as aparências.

Nessa bizarra situação fica pairando no ar –  não se afirma e nem se nega –  uma responsabilidade impossível: a de um ser humano ser eficazmente responsável pela conversão de outro ser humano; ou pela exatidão de sua conduta.

Em nosso evangeliquês citamos à exaustão e convictamente que é o Espírito Santo quem convence da justiça, do pecado e do juízo  (Jo 16,8). Mas na prática, se o filho do obreiro dá sinais de que vai crescendo, tornando-se adolescente ou adulto, e não está interessado “nas coisas de Deus”, a culpa é do pai, claro. O filho adulto puxou cana? A filha deixou o marido e voltou para a casa dos pais? Fracasso do pai. “Que seja afastado de suas funções perante a comunidade!”

“Mas… – às vezes tem um bom samaritano para falar um mas –  ele tem servido à igreja por tantos anos, o quê vai ser dele sem salário e sem outra profissão?”

“Olha aqui! Nosso problema agora é não ter alguém assim na frente do povo, entendeu?” Aí o bom samaritano fica tímido, se amuquinha e fica quietinho, sofrendo calado com os que sofrem também calados.

Os pecados dos filhos são os crimes dos pais. Especialmente se esses pais forem homens que têm se dedicado ao serviço do Evangelho. Têm que ser perfeitos, não apenas em si mesmos, mas para fora de si também, como se suas proles fossem extensões de seu próprio ser.

“A Palavra diz” – agora sai a voz fraca do bom samaritano tímido e ribomba a voz forte e altissonante do sapientíssimo guardião da ortopraxia escriturística – “que o presbítero/obreiro deve trazer seus filhos em sujeição” (I Tm 3,4).

Verdade. E também diz que deve ser irrepreensível (I Tm 3,2)

Agora, por favor, me expliquem adequadamente os sobreditos guardiões: como alguém que não pode dizer que não tem pecado sem chamar Deus de mentiroso (I Jo 1,8 e 10) pode ser irrepreensível?

A Bíblia é sempre verdadeira, e o ser humano incapaz, mentiroso e orgulhoso. O problema reside em não se convencer adequadamente disso e sair por ai fazendo exegeses de botequim, nas quais pessoas ébrias de achismos, sem preparo e sem misericórdia, vão tratorando os mansos e humildes.

Qual pai crente não roga a Deus por seus filhos? Qual pai cristão já não perdeu o sono pensando no destino eterno de seus filhos? Qual pai remido e transformado por Jesus Cristo não sujeita seus desejos e condutas, mesmo que lícitos, a fim de servir de exemplo para seus filhos, para mostrar-lhes o Evangelho de Jesus Cristo? E todos estes esforços, ainda que necessários, posto que “não ouvirão se não há quem pregue”, são os fatores determinantes? Acaso não foi mencionado acima que é com grande regularidade que declaramos ser o Senhor quem convence do pecado, da justiça e do juízo?

Todo o pai e mãe têm que se esforçar e ter bom ânimo, e então, esperar a ajuda de Deus. Há como, neste assunto,  ser irrepreensível além disso?

Graça a Deus que a justiça definitiva pertence exclusivamente a Ele! E assim podemos ter a certeza que não veremos nossos pecados imputados a outros, e vice-versa.

Posted in Reflexão.


E os pais, por onde andam?

É corriqueira e já desgastada nos meios de comunicação a seguinte indagação:

“Que mundo estamos deixando para nossos filhos?”

A intenção é levar a audiência a refletir e estabelecer atitudes principalmente em relação às questões ambientais, sociais e éticas em geral.

Nós, cristãos, remidos pelo Sangue de Jesus Cristo, recebidos como filhos pelo Pai e ternamente conduzidos pelo Espírito Santo, não estamos alheios, alienados e isentos de sermos afetados por todas essas coisas. Porém, nossa justiça deve exceder à dos escribas e fariseus (Mateus 5, 20), ou seja, tem que exceder o lugar comum da moral e dos costumes, da sociedade organizada, da economia e da religiosidade.

Sendo assim nos cabe antes a seguinte indagação:

“Que filhos estamos deixando para o mundo?”

Entendemos aqui a palavra “mundo” não como o “mundo” que está em oposição ao Reino de Deus (1Jo 5, 19), mas como o lugar onde existimos, crescemos na Graça e conhecimento de Deus, onde anunciamos e damos testemunho do Evangelho e somos guardados do mal (Jo 17,18).

Frente à tão grande responsabilidade e honra que nos cabe (servir a Deus vivendo o Reino), quão zelosos precisamos ser nos cuidados e educação espiritual e formal de nossos filhos?

Fui impelido a compartilhar estes pensamentos após ler o texto transcrito abaixo (e agora os disponibilizo neste espaço – perdoem a demora).

A autora escreve movida pela observação de sua realidade cotidiana, e por não ter compromisso com o Evangelho, faz algumas afirmações incabíveis para nós – tais como: devemos assimilar os novos valores –  por isso omiti pequenos trechos. E o quê se nos mostra aceitável no texto ainda precisa ser excedido em nossas posturas, condutas e práticas, que devem ser absolutamente fundadas e fundamentadas por Deus.

E os pais, o que andam fazendo por aí?

Andréa Pachá – O Estado de S.Paulo Um fenômeno recente tem se repetido com frequência cada vez maior nas Varas de Família, em todo o País: a busca da Justiça pelos pais, como forma de suprir a sua incapacidade de estabelecer limites e fazer os seus filhos cumprirem regras e aceitarem restrições. Espera-se que um magistrado decida em que escola a criança deve estudar, que ambientes deve frequentar, que tipo de música pode ouvir, a que horas deve voltar para casa e até mesmo que roupas pode vestir. Não têm sido raras as audiências em que alguns pais, inseguros do seu papel, comparecem na companhia dos filhos e delegam ao julgador escolhas cotidianas, numa declarada manifestação de limitação do exercício da sua autoridade. Trata-se de um verdadeiro paradoxo, pois a mesma sociedade que brada por menos Estado espera que o Estado interfira justamente naquelas relações que deveriam ser exclusivamente privadas. … O processo de educação, no entanto, encontra-se numa encruzilhada: como educar os filhos, com os limites e as restrições próprios do processo civilizatório, sem o devido exercício da autoridade? Como representar o papel de pai ou mãe sem o ônus de se responsabilizar pelas contrariedades naturais do amadurecimento? Como esclarecer para os adolescentes que a vida não é justa e que, infelizmente, nem tudo acontece como se espera e se programa? Como ser firme sem se revelar um déspota e sem perder a ternura? Não existe, até onde se sabe, geração espontânea de adolescentes bem-educados. Exceto que alguém ensine desde a infância, os valores éticos, morais e comportamentais não são inatos nem assimiláveis com o simples e natural passar do tempo. Demonstrar que não se vive em grupo sem aprender a ceder, que a busca desenfreada pelo consumo e pelos prazeres individuais é incompatível com a vida em sociedade, que tristezas e as contradições são estados permanentes da condição humana, que a vida é precária e tudo é provisório, essa é a tarefa primordial dos pais. Assim como é sua tarefa ensinar os filhos a transitarem neste mundo em permanente mudança, observando os valores de humanidade, que devem nortear qualquer relação. A dor e o limite fazem parte desse processo de aprendizado. A tentativa de transferência dessa tarefa, primeiro para a escola, depois para os terapeutas e agora para os juízes não parece o melhor caminho para enfrentar o problema… Quando li o artigo da empresária Vera Ferreira, publicado neste espaço no dia 21 de agosto [2010] (Você sabe o que seus filhos andam fazendo?), não pude deixar de reagir com perplexidade. A autora apresenta-se como mãe de um jovem de 15 anos, estudante de um colégio frequentado pela “nata da sociedade carioca”, conforme ela mesma aponta. Assombrada com duas experiências ocorridas em sua casa, onde, ultrapassando todos os limites, os amigos de seu filho protagonizaram cenas de vandalismo e falta de educação, em festas ali realizadas, faz transparecer, pelo teor do texto, que esse comportamento é corriqueiro em todo um grupo etário e que seu filho é vítima da dissimulação e do cinismo dos colegas da mesma idade. Ela, então, pergunta se os pais estão sabendo o que filhos andam fazendo, como a indicar que o ignoram. Para ser eficiente, também a comunicação entre pais e filhos tem de ser clara e não se resume a uma mera troca de palavras. Mais do que ensinados e verbalizados, os valores éticos devem ser transmitidos pelo exemplo. E o fato é que uma parte significativa da elite da sociedade tem vivido, historicamente, sem se submeter a restrições ou se subordinar a limites para viver em grupo. O reflexo de atos cotidianos dessa elite – nos quais prevalecem a certeza da impunidade, o jeitinho, o paga quem pode, o “sabe com quem está falando?” – acaba sendo assimilado pelos jovens como princípios a serem seguidos. A verdadeira pergunta que se devia fazer, após as cenas de barbárie narradas naquele texto, é diametralmente oposta à que foi feita no artigo da empresária Vera Ferreira: e vocês, sabem o que seus pais andam fazendo por aí?
JUÍZA DE FAMÍLIA DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, FOI CONSELHEIRA DO CNJ NO BIÊNIO 2007-2009

Posted in Reflexão.


Saia do armário

Vivemos um momento inédito e especial. Penso que nunca antes a humanidade o tenha experimentado nessa profundidade e extensão.

A invenção do politicamente correto, da hipertolerância e de outras ideologias têm permitido às pessoas darem seu grito de liberdade. Não há mais minorias oprimidas, nos países ocidentais ao menos, que não tenham visto seus direitos sendo reconhecidos, preservados e até subsidiados pelo ente estatal. Isso ocorre, admito, em diferentes graus, mas há uma tendência e temos que aproveitá-la.

Que ainda existam discriminações, preconceitos tacanhos e fanatismos não se discute. O fundamentalismo tem recrudescido e eu sei que muitos de nós ficamos atemorizados com algumas dessas reações exageradas, com ameaças de violência e com violência que acaba consumada. Sei também que a proporção dos preconceitos e das violências que sofremos ao redor de todo este planeta ainda não tem lugar de destaque na mídia global, pelo menos não tem o destaque que deveria.

Mas é preciso coragem. É preciso superar o medo e subjugar o temor. Assumir-se de uma vez por todas, eu garanto, é uma liberdade que ao ser experimentada fortalece para poder enfrentar todo o escárnio e incompreensão da sociedade.

E enquanto faço esta conclamação para sairmos do armário vou estabelecendo minhas ressalvas quanto a esses dias de orgulhos ou marchas. Não vejo que isso nos ajude a sermos reconhecidos e aceitos, ao contrário. É com a coragem de ser o que somos e com aquilo que mostramos com nossa competência e honestidade que as pessoas poderão nos aceitar, sem ressalvas, pena ou preconceito.

Por isso tudo faço este libelo e conclamo: vamos!

Não permitamos que o peso e a pressão da sociedade nos calem!

Assuma-se com honradez! Diga a si mesmo e depois ao mundo: Sou cristão!

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A ironia embutida no texto acima não deve amenizar a realidade dos dias presentes. O aluno (ou aluna) que no primeiro dia de aula disser diante da classe que é homossexual será provavelmente ovacionado e tratado como herói. Por outro lado aquele que se declarar cristão receberá olhares tortos pelo resto do ano.

Os belicistas e barulhentos movimentos do gayzismo e do ateísmo, bem como os construtores da moderna e idolátrica cultura, estão por ai, tentando marginalizar os cristãos e banir a Bíblia. Não dá mais para ignorar que isso está acontecendo.

Enquanto eu trabalhava este texto um fato que não deve ser menosprezado sucedeu em nosso país. O poder público, representado pelo Judiciário do Estado de São Paulo na cidade de Ribeirão Preto, determinou a retirada de outdoors que continham, tão somente, versículos bíblicos. O defensor público da cidade, autor da ação distribuída sob o Protocolo nº 45315/2011 a pedido do movimento gay, Sr. Aluísio Ruggeri Ré, teria declarado que entre três garantias constitucionais, religiosa, de expressão e opção sexual, deveria prevalecer a liberdade sexual (http://www.evangelizabrasil.com/2011/08/21/a-injustica-censura/). A opinião do Sr. Ré foi aceita pelo judiciário e os outdoors censurados quase que instantaneamente à distribuição da ação. Ou seja, a Bíblia foi censurada! Mutilaram a minha e a sua Bíblia em favor de um grupo de militantes gays que se sentiu acuado pelo Texto Sagrado. O que virá a seguir? Adúlteros pretenderão que versículos bíblicos que os condenem sejam removidos? Alcoólatras? Agressores? Corruptos? Avarentos? Ateus e todos os que têm interesse em que Deus não exista? E isso está acontecendo sem que a famigerada PLC 122 tenha sido aprovada pelo Congresso Nacional. O que sucederá quando o for?

Por isso, diante do quadro que se vai formando, entristece ver o quanto podemos estar nos acomodando ou acovardando. Escondendo-nos entre as quatro paredes que chamamos igreja, templo ou local de reunião, satisfazendo-nos em quase secretamente, ou secretamente mesmo, sermos o que somos apenas umas duas ou três horas por semana.

Enquanto nos omitimos outros de nós, por não se omitirem, sofrem violência muito mais palpável que censuras, ameaças ou escárnio. Eles têm sofrido violência que fere e priva, e que às vezes chega a ser fatal.

Quando fazemos isso, não sermos o que somos 24 horas por dia e 7 dias por semana (perdoem o chavão), estamos impedindo a luz de alumiar e o sal de salgar. Usando a metáfora de Richard Wurmbrand, estamos aprisionando a mais sadia e lúcida Cabeça que jamais existiu em um corpo fraco e manco.

“Eu edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18), [por isso], “Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres.” (Apocalipse 2 : 5), “Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos.” (Lucas 9 : 26). [Lembrem-se que] “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor.” (I João 4 : 18)

A repressão principia de novo. A Bíblia está ameaçada outra vez. A igreja legítima perseguida, por fora e por dentro (as aves do céu vieram e fizeram ninho), como o foi desde o começo. Porém, como citado acima, as portas do inferno não prevalecerão!

Por causa de tudo e apesar de tudo as ovelhinhas trêmulas, mudas e conformadas que me perdoem, mas o Senhor Jesus, para Deus quanto à nossa salvação, é O Cordeiro, mas para o poder do pecado, do inferno, do diabo e do mundo é O Leão.

E por ter escrito demais, e talvez sem muita coesão, encerro com o mordaz dinamarquês Soren Kierkegaard:

“Declaro incrédulo àquele que o [cristianismo] defenda. Se crê o entusiasmo de sua fé nunca é uma defesa, é sempre um ataque, uma vitória; um crente é um vencedor”.

 

Posted in Reflexão.


A CURA DA MALEDICÊNCIA

O texto base de reflexão está em Mt 18:15-17. A partir do qual John Wesley pregou o sermão que nos serve de referência.

Mas o que é maledicência? John Wesley diz: “Não é, como alguns supõem, o mesmo que mentira ou calúnia. Tudo quanto o homem diz pode ser verdadeiro como a Bíblia, e ainda seu falar constituir maledicência.” Maledicência é dizer mal de uma pessoa ausente, referindo alguma falta que houvesse sido realmente praticada ou dita por alguém que não se encontre presente quando se faz a referência. É o mesmo que “falar pelas costas.”

Para Wesley, murmuração é fazer a referência a um fato “de modo simples e sereno (talvez com expressões de boa vontade para com a pessoa, e com esperança de que as coisas não sejam inteiramente más).”

“Se, pois, alguém começar a dizer mal a teus ouvidos, repele-o imediatamente. Recusa-te a ouvir a voz do encantador…”

Esse é um pecado comum. Tanto rico e pobre, o sábio e o insensato têm cometido essa transgressão. Como estamos rodeados por ele de todos os lados, se não formos profundamente sensíveis ao perigo, e se não nos guardarmos constantemente, estaremos sujeitos a ser levados na torrente. “A maledicência nos ataca sob disfarce, diz Wesley, pois falamos assim por uma nobre e generosa (será bom se não dissermos santa!) indignação contra aquelas vis criaturas”!

Cometemos pecado por mero ódio ao pecado! Servimos ao diabo por zelo puro de Deus! “Como evitar o laço? Jesus nos ensina, no nosso texto bíblico de referência, um método seguro de evitar a maledicência: “Se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente: se te ouvir, ganhaste a teu irmão. Mas se te não ouvir, leva ainda contigo uma ou duas pessoas, para que por boca de duas ou três testemunhas toda a questão se decida. E se ele recusar ouví-las, dize-o à igreja; e se também recusar ouvir a igreja, considera-o como gentio e publicano” (Mt 18:15-17).

Se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente. Wesley diz que se você viu com teus próprios olhos um irmão ou irmã cometer pecado, ou ouvires com teus próprios ouvidos, não duvidando, portanto, do fato, “aproveita a primeira oportunidade para ires ao seu encontro.”

Wesley adverte ainda ao que irá falar. Ele diz que deve se tomar cuidado para que isso aconteça “num espírito reto e de maneira reta. O sucesso de uma advertência depende grandemente do espírito com que é feita.”

A exortação deve ser feita em um espírito de serenidade. São palavras de Wesley: “Vê que fales num espírito de mansidão, assim como de serenidade, porque a ira do homem não cumpre a justiça de Deus”. E ainda orienta: “Fala, ainda, num espírito de terno amor. Assim amontoarás brasas vivas sobre sua cabeça.”

Mas não termina aí a orientação de John Wesley. Ele diz: “Mas vê que a maneira por que fales seja também segundo o Evangelho de Cristo. Evita tudo no olhar, no gesto, na palavra e no tom de voz que tenha o sabor de orgulho ou de suficiência própria. Ponderadamente evita todo ar didático ou dogmático, tudo que resuma arrogância ou presunção.”

No relacionamento, na orientação, não deve haver nenhuma sombra de ódio, amargura, aspereza, mas uma linguagem de doçura e delicadeza “para que todas as palavras possam demonstrar que jorram do amor no coração.” Mas Wesley nos chama a atenção: “essa doçura não deve, todavia, impedir que fales de maneira mais séria e solene.”

Mas e se não tivermos oportunidade de falar pessoalmente com as pessoas? Wesley diz que podemos falar por meio de uma outra pessoa, “um amigo comum, em cuja prudência, assim como integridade, possas inteiramente confiar. Tal pessoa, falando em teu nome, no espírito e de maneira acima descrita, pode preencher o mesmo fim e, em boa medida, suprir tua falta nesse serviço. Sempre que puderes falar por ti mesmo, será muito melhor.”

Mas, que fazer se não pudermos falar nem diretamente e nem por um amigo em quem podemos confiar? Wesley diz que só resta escrever. E haverá algumas circunstâncias que tornem o meio aconselhável. Uma dessas circunstâncias ocorre quando a pessoa com quem temos de tratar é de temperamento tão excitável e impetuoso que não suporte facilmente admoestações, especialmente de alguém que ele julgue um igual ou inferior. “Mas estas obras podem ser apresentadas e abrandadas por escrito, de modo a se tornarem muito mais toleráveis.” Segundo Wesley, as palavras escritas não causam violento abalo no seu orgulho nem ferem a honra sensivelmente.

É bom lembrarmos que esse é o primeiro passo que Jesus nos ordena a seguir nesta questão. Ele deve ser dado, em primeiro lugar antes de tentarmos qualquer outra coisa. Para aqueles que não desejam tomar essa atitude de falar com o irmão ou irmã que erraram, ele diz: “Deus te reprova por causa de um pecado de omissão, por não falares a teu irmão acerca de sua falta.” Wesley adverte: “A comodidade comprada em troca do pecado é um mau negócio.”

Wesley diz que só conhece uma exceção a essa regra de denunciar o pecado embora o culpado esteja ausente: para salvar o inocente. Sim, esta regra deve ser quebrada quando estamos a par da intenção de uma pessoa que deseja prejudicar a alguém (a propriedade ou a vida do próximo).

Neste caso, “é nosso dever indeclinável, dizer mal de um ausente, para evitar que este faça mal aos outros e ao mesmo tempo a si mesmo.” Devemos usar este meio com temor e tremor, pois é um remédio perigoso.

Mas, e se nós formos falar com quem pecou contra nós e ele não nos ouvir? E se retribuir o bem com o mal? E se ele se irritar em vez de se convencer? Pra começar, Wesley diz que devemos esperar constantemente por isso. Mas a bênção que nós desejamos para a pessoa que errou voltará ao nosso próprio coração.

Jesus nos orienta a seguir um segundo passo: “toma contigo um ou dois mais”. Que eles sejam amáveis, amigos de Deus e de seu próximo. Devem ser também de espírito sincero, humildes, mansos, delicados, pacientes, longânimos, incapazes de retribuir o mal com o mal. Que sejam pessoas de entendimento, dotados de sabedoria do alto, livres de parcialidade, livres de preconceitos, etc.

“O amor ditará a maneira pela qual devam proceder”, diz Wesley. Essas pessoas devem ouvir de tua própria boca as palavras que você falou na primeira conversa. Assim, essas pessoas serão mais capazes de ter um reto procedimento, saber a melhor maneira de agir.

E se mesmo assim a pessoa em questão não nos ouvir? Bem, Jesus nos deu um outro passo a seguir: “dize-o à Igreja”. Wesley entende que Jesus não está falando que o assunto deve vir a público, ou seja, a toda congregação, pois não teria “nenhum fim apreciável contar as faltas individuais de um membro a toda Igreja”. Então, resta dizê-lo aos presbíteros da Igreja, àqueles que são os pastores do rebanho de Cristo, a quem ambos pertenceis, que velam sobre a tua alma e sobre a dele.”

Wesley diz que “quando tiverdes feito isto, terás libertado tua própria alma”. Devemos entregá-lo a Deus, em oração. Jesus disse: “seja ele para ti como um gentio ou publicano”, ou nas palavras de Wesley, “não tens obrigação de pensar dele nada mais a não ser quando o encomendares a Deus em oração”.

Devemos ter cortesia, bondade para com ele, quando for preciso, “mas não tenhas amizade, nenhuma intimidade com ele; nenhuma outra relação do que a que deves ter com um gentio conhecido como tal”. Wesley adverte aos cristãos: “Se, pois, alguém começar a dizer mal a teus ouvidos, repele-o imediatamente. Recusa-te a ouvir a voz do encantador…”

Devemos recusar ouvir, mesmo que ele “use de maneiras delicadas, de doce melodia, com os melhores protestos de boa vontade para aquele a quem está assassinando no escuro, para com aquele que está ferindo sob a quinta costela! Recusa-te resolutamente a ouvir, embora o maldizente se queixe de estar sobrecarregado, enquanto não fale”.

Wesley conclui: “Expulsai a maledicência, o falatório, a murmuração: que nenhuma dessas coisas proceda de vossa boca”. “Um cristão, diz Wesley, não censura a ninguém pelas costas. O Senhor habilitou a amarmos-nos assim uns aos outros, não apenas de palavra e de língua, mas em obras e em verdade, assim como Cristo nos amou!”

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“A maior parte dos problemas na igreja seria resolvida se tão somente os irmãos parassem de falar mal uns dos outros” – Watchman Nee

 

 

 

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Otacílio e Severino

Otacílio veio de família tradicional, de tradicional bairro de São Paulo. Homem instruído, pós-graduado. Ocupa posição de destaque em empresa multinacional. Bom de papo. Vocabulário rico, como o bolso. Gosta de receber àqueles de quem gosta em seus apartamentos espaçosos, o de sampa e o de Guarujá. Comida boa, sofá confortável e lá pelas tantas dá para engatar uma conversinha sobre as coisas do Evangelho, do Reino de Deus, da Igreja. Mas Otacílio logo toma as rédeas do assunto. Tem certeza de suas opiniões, tanto que não se dispõe a ouvir, para ele conversar é apenas falar. Por isso mesmo a conversa logo retorna para coisas, compras, mimos, viagens e claro, queixar-se habilmente dos desafetos. Ainda assim muitas pessoas o consideram companhia mui agradável.

Severino é filho de retirante. Assentado em algum bairro pobre de São Paulo, quase uma favela. Mas é tudo de alvenaria! Ele gosta de frisar. Praticamente analfabeto. Afirmam ser um pedreiro capaz. Sotaque arrastado, é preciso esforço para entendê-lo. Vocabulário pobre, como o bolso. Gosta de receber qualquer um que se disponha a estar com ele; superando a vergonha por sua casa sem acabamento e sem sofá. Comida simples, mas saborosa, poucos a provaram, acho que têm nojo da pobreza. Vai logo falando do Bendito Senhor. Falamos do clima, do emprego e outras coisas cotidianas, mas Severino logo quer ouvir é de Jesus Cristo, da Bíblia. Ele é assim, sempre disposto a ouvir, tem sanha de aprender, de ser melhor. Ainda assim poucas pessoas o consideram companhia agradável ou conveniente.

Otacílio ao que consta é cristão há muito tempo, embora ninguém saiba dizer quanto. Sobre a experiência de sua conversão também não se tem muita clareza. Como teria sido sempre um bom moço vindo de boa família evangélica, não dá para determinar uma marcante mudança de vida.

Severino converteu-se há pouco mais de três anos. Em sua experiência de conversão inclui-se uma vida tocada a álcool, um casamento quase no fim e filhos com medo do pai. Os conhecidos de velhos tempos falam animados de como Severino está diferente. Sem álcool, sem brigas, amado pelos filhos e, dizem entusiasmados, não fala mais palavrão!

Tiago, aquele da Epístola, certamente lidava com alguns Otacílios e  Severinos. Tanto que teve de relembrar à igreja alguns procedimentos adequados ao povo cristão, tais como a unidade, a caridade, a vida comunitária, a beneficência, o amor. Tiago fala disso tudo com palavras diretas, sem metáforas:

Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, Porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais? Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado? Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis. Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redargüidos pela lei como transgressores (Tg 2, 1-9).

Em um Reino de equidade, igualdade e justiça, onde todos são irmãos, se alguma atenção especial  é devida a alguém é ao Severino.

Paulo, o apóstolo, na primeira epístola aos Coríntios faz imperativa observação:

E os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais honra.Porque os que em nós são mais nobres não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela; para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros. (I Co, 12, 23-25).

Tiago e Paulo continuam falando, pela inspiração e soberania de Deus, Aquele cuja Palavra não passará. Mas parece, tristemente, que continuamos a não ouvir direito. Otacílio ainda é mimosamente preferido e Severino ainda é educada e indiferentemente preterido.

P.S. – Os personagens, nomes e detalhes são fictícios. A realidade dos fatos bem que poderia ser também.

 

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Quem é Jesus?

Um homem judeu e carpinteiro humilde que só fez o bem, mas que foi condenado a vergonhosa, cruel e dolorosa morte. Contudo marcou profundamente a história da humanidade.

Alguns o classificam de sábio, outros de mestre e outros de profeta.

Como foi possível que esse homem humilde, que viveu em uma cidade empobrecida e desprezada no país dos hebreus, que jamais escreveu um livro nem procurou se impor pela força, pelo contrário, viesse a se tornar o homem mais conhecido e admirado da História?

Por que, ainda hoje, em nossa sociedade ultramoderna, iluminada e tecnológica, tantas pessoas estão dispostas a segui-Lo, às vezes com o sacrifício da própria vida?

Simplesmente porque Ele é quem afirma ser!

Através dos séculos, milhões de homens e mulheres têm descoberto, por intermédio de um íntimo e inquestionável relacionamento, alguém infinitamente maior que um sábio, mestre ou profeta. Ao escutar receptivamente Sua mensagem, O reconhecem pelo o que Ele é: inteiramente homem e inteiramente Deus, plenamente Amor e Verdade. Eles o reconhecem como seu Redentor.

Sua vida, morte, ressurreição e mensagem lhes deram um novo sentido e foco para viver.

Prezado(a) leitor(a), você também foi convidado(a) a descobrir quem é Jesus. Ele mesmo quer Se dar a conhecer, mas não lhe dirá necessariamente aquilo que você anseia ouvir, mas aquilo que precisa saber. Ele não quer lhe condenar ou anular, Ele quer salvar e restituir. Pela leitura das boas notícias (o Evangelho) de Jesus Cristo você pode descobrir por si mesmo(a) Aquele que abriu o caminho para a presença real de Deus e para uma vida em um plano mais elevado.

 

* Texto inspirado no Devocional Boa Semente 2009 – www.literaturacrista.com.br

 

Quem é Jesus?

 

Um homem judeu e carpinteiro humilde que só fez o bem, mas que foi condenado a vergonhosa, cruel e dolorosa morte. Contudo marcou profundamente a história da humanidade.

Alguns o classificam de sábio, outros de mestre e outros de profeta.

Como foi possível que esse homem humilde, que viveu em uma cidade empobrecida e desprezada no país dos hebreus, que jamais escreveu um livro nem procurou se impor pela força, pelo contrário, viesse a se tornar o homem mais conhecido e admirado da História?

Por que, ainda hoje, em nossa sociedade ultramoderna, iluminada e tecnológica, tantas pessoas estão dispostas a segui-Lo, às vezes com o sacrifício da própria vida?

Simplesmente porque Ele é quem afirma ser!

Através dos séculos, milhões de homens e mulheres têm descoberto, por intermédio de um íntimo e inquestionável relacionamento, alguém infinitamente maior que um sábio, mestre ou profeta. Ao escutar receptivamente Sua mensagem, O reconhecem pelo o que Ele é: inteiramente homem e inteiramente Deus, plenamente Amor e Verdade. Eles o reconhecem como seu Redentor.

Sua vida, morte, ressurreição e mensagem lhes deram um novo sentido e foco para viver.

Prezado(a) leitor(a), você também foi convidado(a) a descobrir quem é Jesus. Ele mesmo quer Se dar a conhecer, mas não lhe dirá necessariamente aquilo que você anseia ouvir, mas aquilo que precisa saber. Ele não quer lhe condenar ou anular, Ele quer salvar e restituir. Pela leitura das boas notícias (o Evangelho) de Jesus Cristo você pode descobrir por si mesmo(a) Aquele que abriu o caminho para a presença real de Deus e para uma vida em um plano mais elevado.

 

* Texto inspirado no Devocional Boa Semente 2009 – www.literaturacrista.com.br

 

 

Posted in Maná.


Virou crente mesmo!

Não que eu seja um intrometido que fica à espreita de conversas alheias, mas também não sou surdo – aliás, Deus me deu uma audição bem satisfatória. Portanto, não pude deixar de ouvir esse pedacinho de conversa durante de meu expediente de trabalho.

Escutava vagamente o zun-zun-zun inconveniente quando ouvi o “virou crente mesmo!”, admito, agucei os ouvidos. E o restante da conversa que me foi possível escutar seguiu mais ou menos assim:

É!?”

“É. Não sai mais de casa, quase não fala com a gente, não corta o cabelo, só usa saião…”.

“Sério!”

“Pois é. Tô fora. Até vou na [sic] igreja de vez em quando. Mas comigo a coisa é logo nos finalmentes…”.

Escutei até aqui. As duas mulheres continuaram a conversa enquanto caminhavam para outro setor.

Duas coisas deixaram-me intrigados.

Primeira. O “virar crente mesmo” no entendimento comum das gentes implica em nos tornarmos pessoas caretas (no mal sentido, lógico), vestindo-se com gosto duvidoso, cheias de cabelo (ou não), semi-eremitas e que são assumidamente insuportáveis?

A partir daqui retomei considerações anteriores. Como um pacato observador do cotidiano algumas atitudes que açambarcam boa parte da cristandade saltam-me aos olhos. Como, por exemplo, a famigerada presunção de santidade.

Um tipo de moral vitoriana moderna, na qual o hábito faz o monge, que   desfralda as mui pequeninas, mas pretensiosamente alvissareiras, bandeirolas do não fumo e não bebo.

Como se a justiça dos cristãos não devesse exceder a dos escribas e fariseus (Mateus 5, 20).

Afinal o consumo vicioso do tabaco causa inúmeros males à saúde (como também faz mal, ainda que em diferente potencial, o consumo contumaz de cafeína, refrigerantes, massas, gorduras, carnes vermelhas, etc.) – e por isso está-se restringindo as áreas em que os fumantes podem se envenenar. Em Nova Iorque uma lei pretende proibir o fumo não somente em lugares fechados, mas nos parques também, e na Islândia pretende-se que a venda de cigarros ocorra mediante receita médica.

O alcoolismo (consumo consistente e excessivo de bebidas alcoólicas), todos o sabemos, é um grave mal social. Arrasa a vida do/a alcoólatra, de suas famílias e de terceiros – lembrando que beber e dirigir dá cadeia, pelo menos deveria.

Ou seja, não é diferencial nenhum o abster-se disso, é coisa corriqueira que se vai regrando e institucionalizando.

Mas e aquilo que as gentes praticam desavergonhadamente, tais como o envolvimento maciço com o entretenimento, com conversações e programações chulas, com o consumismo, com o legalismo e/ou o antinomismo, com o desamor, com o individualismo, com a avareza, com Mamon e tudo o mais que integra um sistema do qual devemos fugir (Rm 12,2)? Isso não ofende a santidade ensinada por Jesus Cristo?

A santidade que vai sendo arvorada pelos chamados “neo-pentecostalismo e movimento gospel” está longe do padrão estipulado por Deus; não passa de uma caricatura.

E mesmo sendo uma caricatura, ou exatamente por ser uma, a petulância arrogante impulsiona os que “viraram crentes mesmo” a olhar por cima do restante da humanidade, incluindo aí os outros crentes, tidos por aqueles como carnais. Acomodam-se e pensam gozar de alguma superioridade por não fumar, não beber, não jogar na mega-sena, não cortar o cabelo, não usar camisetas, perfumes ou sabonetes, e por ai vai.

Estão aptos a bater no peito, como o fariseu de Lucas 18, e bradar: Sou santo! E vocês, pobres pecadores… Quão diferente é o exemplo dO Santo.

A Graça, se algum dia entenderam o que significa realmente, foi necessária apenas no princípio, agora a santidade passou a ser uma qualidade inerente aos que “viraram crentes mesmo”, segundo seus próprios padrões, é claro. Aliás, talvez entendam eles/as que já fossem especiais antes de “virar crente”, sem que o soubessem. É a tal da inversão da justificação somente pela fé por um tipo de crença na fé para a justificação.

Em tendo outrora pensado todas estas coisas havia concluído que o prejuízo para a proclamação do Evangelho é efetivamente considerável, não imaginava que o povão já dava como lugar comum aquilo que é apenas caricato. O “virar crente mesmo” para eles é representado pelo arremedo, e não pelo modelo mostrado pela Bíblia. Intrigante…

A segunda coisa que também intriga é o “… comigo a coisa é logo nos finalmentes…

O quê é que isso quer dizer!?

 

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